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BRASIL MOSTRA TUA CARA
Dois anos atrás, a Prelazia de São Félix do Araguaia, começou um curso de formação na linha de Fé e Política. O objetivo é o desenvolvimento de uma escola de formação de Fé e Política, algo que já existe em outras regiões do Brasil e em outras Igrejas. Neste fim de semana, 16 e 17 de maio, em São Félix do Araguaia, terá lugar a quarta etapa deste curso. O tema: A formação do povo brasileiro, identidade cultural. Quem somos? Para onde vamos?Para falar sobre o assunto veio de Belo Horizonte Rodolfo Alexandre Cascão Inácio, o nome é longo, melhor dizer logo, Cascão, e todo mundo na região conhece. Cascão é artista, foi agente de pastoral da Prelazia e primeiro prefeito de Porto Alegre do Norte. Aproveito sua passagem por São Félix para entrevistá-lo.
- Paulo Gabriel: Neste fim de semana em Vila Rica houve uma audiência pública sobre o Zoneamento do Estado. Muita movimentação, tensões até. O agronegócio se organizou mesmo, para barrar certos avanços na linha ecológica e na distribuição da terra. Que lembranças você tem do tempo que você viveu na região?
Cascão: Esse tema de entender a política pública como uma ação integrada em um território para além das divisas municipais é um processo recente, apesar do geógrafo brasileiro de renome internacional Milton Santos, ter nos alertado para isso há muito tempo. Na época em que fui prefeito na década de oitenta, ainda éramos vítimas da secular política dos coronéis, onde com autoritarismo os chefes do executivo mandavam no seu terreiro. Entre os quatro prefeitos da Corrente Popular dos municípios de São Félix, Canarana, Santa Terezinha e Porto Alegre do Norte procuramos empreender uma ação micro-regional integrada voltada para o social e de forma participativa. Com apoio de técnicos e agrônomos pesquisamos a vocação da região e chegamos na proposta de centrar no plantio da banana, gergilim e caju. Isso visava um respeito a particularidade do nosso ecossistema, fazer uma leitura generosa da natureza e ver o que ele oferece de melhor, sem muito esforço e especialmente sem degradação. Mas era uma aposta empreendedora, de pesquisa de mercado, de processamento industrial com fabricação de doce, suco etc... Enfim tornar a micro-região um polo produtivo, com retaguarda ao pequeno e medio agricultor com financiamento, assistencia tecnica e capacitação. - Paulo Gabriel É o que hoje é batizado de desenvolvimento sustentavel? Cascão - exatamente - Paulo Gabriel: e o agronegocio nisso, ele também não busca transformar a região nossa num polo produtivo? Cascão: pode até ser, mas em pouco tempo, pois esgotam-se rapidamente os recursos naturais e em proveito de poucos. Como diz o deputado de Brasilia, eles estão pouco se lixando pra maioria dos moradores da região, os desbravadores, os índios; eles, os representantes do agronegócio, que hoje é o outro nome do latifúndio, estão se lixando pro nosso cerrado que está virando uma terra arrasada da monocultura, nossos rios e córregos estão secando, nossas seriemas e borboletas em extinção, em resumo, estão se lixando pra vida e pras futuras gerações, pois inclusive nem moram aqui, estão morando em mansões em algum lugar nos sudeste e até no exterior.
- Paulo Gabriel. E sobre o tema do curso deste fim de semana? A formação do povo brasileiro?Quem somos? Como definir nossa identidade? -Cascão: Darcy Ribeiro anunciou que somos um povo novo, um povo em formação, apesar do território brasileiro ter sido ocupado por etnias indígenas há mais de 10.000 anos, o que derruba a tese do "descobrimento". Foi uma invasão vergonhosa; apesar disso, o povo brasileiro começa a se constituir enquanto tal duzentos anos atrás com essa fusão de matrizes diferentes: indígenas, africanas e européias. - Paulo Gabriel: Você se refere a Portugal? -Cascão:Aqui é bom destacar que além da presença dos portugueses nos quatro primeiros séculos ocorreu uma leva de sete milhões de imigrantes italianos, espanhóis, japoneses, alemães, entre outros, que incrivelmente apesar de toda essa diversidade se abrasileiraram. Então o povo brasileiro é essa mistura e esses contrastes e aqui especialmente aparecem mais evidentes os contrastes sociais e políticos, pois como há 500 anos ainda temos uma elite pequena altamente concentradora que explora, que vem explorando uma massa trabalhadora que ainda precisa ganhar sua emancipação. -Paulo Gabriel: E o que você diz a respeito do jeitinho brasileiro? -Cascão: Somos um povo visto como alegre, acolhedor, solidário, mas essas virtudes de relacionamento tem que se transformar em carga política para construir um Brasil justo, soberano e democrático. Quando todos tiverem pão na mesa aí sim poderemos afirmar sem sombra de dúvida que somos uma nação da festa, da esperança e da utopia.
Por:
Paulo Gabriel

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