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QUANTOS MEGA TEM O SEU PEN-DRIVE
Paulo Gabriel Aprendi a amar a língua portuguesa lendo com paixão Fernando Pessoa, Saramago, Clarice Lispéctor, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Chico Buarque ou Manoel de Barros, por citar alguns. A língua, como a religião, a culinária ou o folclore expressam a alma de um povo, aquilo que dá identidade a um grupo humano. Já que a língua é expressão da vida, deve ser permanentemente recriada, reinventada, de forma original e única. Daí a importância de amar a própria língua, conhecê-la, usá-la de forma digna e bela, tratá-la com carinho, como Ronaldo trata a bola. Nós somos a palavra que falamos, é na palavra onde nos revelamos, e a Bíblia diz que Deus é Palavra. Ultimamente por motivos diferentes tive que ler as redações de alunos de diversos níveis; passei também os olhos por alguns jornais que circulam na região. É de chorar! Erros crassos, pobreza de idéias e de linguagem, faltas ortográficas grosseiras mostram o abismo em que a escola se afundou. E se de falar se trata, não são usadas mais de quatro ou cinco palavras: “pô, cara, beleza, é isso aí, bicho, ok” e pouco mais... Simultaneamente, vejo esse pessoal que mal consegue colocar numa frase sujeito, verbo e complemento, encher o peito e usar de forma despudorada palavras como: giga, laptop, coffee brake, notebook, MP3, X-burger, deletar, site, blog, web... Amar a língua mãe é amar a Pátria, é sinal de resistência cultural. Como diz Caetano Veloso “a língua é minha Pátria”. Nada contra o Inglês ou outras línguas, todo conhecimento é bom e necessário; eu mesmo fui alfabetizado em Espanhol. O que importa é que o fascínio do de fora não seja complexo de inferioridade ou nos leve a perder a própria identidade. Urge beber na fonte original da nossa língua, abrir a alma ao infinito, cultivar o desejo da beleza. Deus é a beleza sempre antiga e sempre nova, dizia Santo Agostinho. Há prazeres impagáveis: gozar de um nascer do sol à beira do Araguaia, ouvir no silêncio da noite música da boa e ler a qualquer hora do dia poemas como este de Manoel de Barros, capazes de reinventar o mundo e dar sentido à vida: NOMES O dicionário dos meninos registrava talvez àquele tempo nem do que doze nomes. Posso agora nomear nem do que oito: água, pedras, chão, árvore, passarinhos, rã, sol, borboletas... Não me lembro de outros. acho que mosca fazia parte. acho que lata também. (Lata não era substantivo de raiz moda água sol ou pedra, mas soava para nós como se fosse raiz). Pelo menos a gente usava lata como se usássemos árvore ou borboletas. Me esquecia da lesma e seus risquinhos de esperma nas tardes do quintal. A gente já sabia que esperma era a própria ressurreição da carne. Os rios eram verbais porque escreviam torto como se fossem as curvas de uma cobra. Lesmas e lacraias também eram substantivos verbais porque se botavam em movimento. Sei bem que esses nomes fertilizam a minha linguagem. Eles deram a volta pelos primórdios e serão para sempre o início dos cantos do homem.
Por:
Paulo Gabriel

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